Dicionário de Gênero e Segurança

FEMINISMO MARXISTA

Gabriela Araújo
Lívia Peres Milani
Mariana Jacques

O feminismo marxista surgiu como crítica e releitura da concepção marxista sobre o trabalho e a produção do valor. Silvia Federici (2019a, p. 195) ressalta que o marxismo não havia incorporado à análise as formas de trabalho que não tem como razão de ser a produção de mercadorias, mas a reprodução social – atividades relacionadas à educação, ao cuidado e à reprodução biológica. Tendo esta constatação como ponto de partida, o feminismo marxista objetiva analisar  as  estruturas sociais e a divisão sexual do trabalho, intensificada nos momentos de acumulação primitiva – o processo violento que levou à gênese e às reestruturações do capitalismo, como ocorreu com a adoção de políticas econômicas neoliberais, intensificadas a partir da década de 1980. 

Desde as origens desta corrente, nos anos 1970, há uma conexão entre os estudos feministas marxistas e o ativismo de mulheres, que se dedicaram à organização de greves, ao movimento pela remuneração do trabalho reprodutivo, a atos de resistência ao neoliberalismo e contra a precarização do trabalho e a deterioração das políticas públicas (ARRUZZA et all, 2019; FEDERICI, 2019a, 2019b). Em contraposição a outras vertentes feministas – especialmente liberais – as marxistas defendem a necessidade de pensar sobre igualdade não apenas no âmbito do gênero, mas também da raça e da classe, assim como a importância da luta anti-imperialista (ARRUZZA et all, 2019). Ao mesmo tempo, também fazem uma crítica ao feminismo liberal por este não propor uma mudança radical do status quo, enfatizando soluções baseadas na diversificação nos postos de comando capitalista. Em outras palavras, criticam a ideia de que a desigualdade de gênero poderia ser superada pela inclusão de mulheres na política e na gestão de grandes empresas, o que se distancia da visão marxista de abolição das hierarquias de classe social. Assim, trata-se de uma corrente teórica anticapitalista que se propõe à reflexão e à transformação do mundo.

O conceito de gênero é abordado como relação de poder social, operando como forma de gerar e manter hierarquias entre homens e mulheres dentro da classe trabalhadora (ROBERTS, 2016). Neste sentido, esta corrente investiga os processos ocorridos na origem do capitalismo por meio dos quais houve uma intensificação da opressão das mulheres, as quais tiveram seu poder destruído por meio dos diversos episódios de “caça às bruxas” (FEDERICI, 2019b). Com a intensificação das opressões de gênero e com o advento do racismo, o capital impôs divisões no interior da classe trabalhadora, que dificultam a resistência e, portanto, são funcionais à acumulação capitalista. Assim, o feminismo marxista propõe uma releitura da concepção tradicional da classe social, superando a visão do proletariado liderado pelo homem branco e postulando que “a maior parte da classe trabalhadora global é constituída de imigrantes, pessoas racializadas, mulheres – tanto cis como trans – e pessoas com diferentes capacidades, cujas necessidades e desejos são renegados ou deturpados pelo capitalismo” (ARRUZZA et all, 2019, s/p).

O conceito de reprodução social é central ao feminismo marxista e refere-se ao trabalho necessário para suprir as necessidades humanas, como o cuidado afetivo, a reprodução biológica e a socialização e educação das crianças. Opressões de gênero e a reprodução social contribuem para a divisão sexual do trabalho, na qual as mulheres são designadas para as extensões das atividades domésticas citadas anteriormente, e são consideradas a classe dos “não trabalhadores”, enquanto os homens criam uma nova espécie de “classe trabalhadora” (FEDERICI, 2019a, p.78). Nesse cenário, o capitalismo se utiliza das faixas salariais para promover tais distinções, essa seria portanto, a justificativa de as mulheres ganharem menos que os homens. 

Entre as principais contribuições do feminismo marxista, encontra-se também a reflexão sobre o trabalho doméstico. Embora este não tenha sido desconsiderado nos estudos de Karl Marx, para Federici (2019a) trata-se da exploração feminina, uma vez que esse trabalho não assalariado assegura condições propícias para que haja força de trabalho, que é essencial para o capitalismo. Fazendo com que as mulheres não ganhem salários e fazendo a ligação do mesmo como uma atividade ligada ao amor e cuidados maternais, manipula-se a forma “mais disseminada [do trabalho] e da violência mais sutil que o capitalismo já perpetuou contra qualquer setor da classe trabalhadora” (FEDERICI, 2019a, p. 42).

O trabalho doméstico é constituído não apenas pelas tarefas de limpeza e cozinha dos lares, como também, trata-se de cuidados maternais e matrimoniais (FEDERICI, 2019a). No caso do cuidado maternal, cabe à mãe realizar toda a educação e instrução dos filhos, caso não haja um bom comportamento, a mãe é quem é culpabilizada. Quando se refere às relações com o marido, o sistema incumbe às mulheres de estarem sempre dispostas a realizar os desejos afetivos e sexuais de seus cônjuges, para que eles descontem as frustrações que se deparam no cotidiano e, principalmente, as infelicidades encontradas no ambiente de trabalho. Nesse sentido, ocorre também o não assalariamento deste trabalho doméstico, para que seja vendido como uma forma de demonstração de amor e afeto por aqueles da família institucionalizada que o sistema capitalista vende às mulheres. Federici (2019a, 2019b) denota que quando as mulheres buscam novas formas de emprego, os empregadores se aproveitam da necessidade de um salário para proporem valores muito abaixo da média para esse grupo. 

Cabe destacar a crítica do feminismo negro, que ressalta as condições reais das mulheres negras e das classes trabalhadoras, as quais poucas vezes tiveram condições de se dedicar apenas ao trabalho doméstico, convivendo com os efeitos do passado escravagista, com a perenidade dos salários baixos e das duplas jornadas (DAVIS, 2016). Inclusive, a invisibilidade dessas mulheres no próprio feminismo faz com que muitas mulheres negras enxerguem os homens negros como companheiros de luta, e não as mulheres brancas. Cabe problematizar também a desvalorização das atividades reprodutivas que, quando mercantilizadas e combinadas com a deterioração das políticas públicas para a educação, para a infância e para a saúde, significaram a precarização das trabalhadoras e dos trabalhadores, que comumente recebem salários mais baixos que aqueles que se dedicam à produção de mercadorias. Federici (2019b) tangencia estes debates em Calibã e a Bruxa ao ressaltar como o processo de transição para o modo de produção capitalista foi global e implicou na subalternização e escravização de populações não-europeias.

Com o surgimento do neoliberalismo durante o século XX, essas divisões envolvendo gênero dentro das economias chegaram a criar uma nova divisão internacional do trabalho (DIT). Nesse cenário,produziu-se a “feminização da pobreza[i]”, ocasionando um novo tipo de segregação entre as mulheres, que deve ser discutida e combatida pelo movimento feminista (FEDERICI, 2019a, p.137). Federici também denota o caráter antifeminista da nova DIT como uma possível estratégia de se estagnar as lutas femininas “contra a discriminação, o trabalho não remunerado e o “subdesenvolvimento” em todas as suas formas” (FEDERICI, 2019a, p. 157). 

O feminismo marxista foi incorporado às Relações Internacionais especialmente a partir da subdisciplina da Economia Política Internacional, contudo, o mesmo tem potencial para trazer importantes contribuições aos estudos de Segurança Internacional. No que se refere ao estudo da guerra, por exemplo, é necessário maior reflexão sobre o papel das mulheres e da reprodução social durante as campanhas militares, assim como sobre o lugar da mulher na divisão do trabalho militar – o trabalho de Cecília Adão (2008), sobre o papel da esposa na manutenção e ascensão do marido na carreira militar é uma contribuição importante neste sentido. Ainda, é possível problematizar a valorização e glamourização da destruição – da guerra – em detrimento das atividades relacionadas ao cuidado e à reprodução social, tanto nas Teorias de Relações Internacionais, quanto na cultura popular. Análises sobre o papel das mulheres nos movimentos pela paz também seriam importantes contribuições. Outro tema interessante para pesquisa refere-se aos efeitos do imperialismo para as mulheres do Sul Global – o que sugere a possibilidade de diálogos entre o feminismo marxista e o feminismo decolonial. Por fim, o conceito de pacificação, trabalhado por Neocleous (2011) busca articular os estudos de segurança com a acumulação primitiva e a manutenção da ordem capitalista, sugerindo a possibilidade de diálogos.

As discussões da Economia Política Feminista, apresentada por Jacqui True (2010) como um método de análise da violência de gênero, também apontam para as possibilidades de diálogo entre os pressupostos do feminismo marxista e os estudos de segurança internacional. Tal método chama atenção para as interconexões entre as áreas econômica, social e política a fim de entender como o poder opera na sociedade. Esse método se estrutura a partir da análise dos aspectos micro e macroeconômicos e das identidades e relações de gênero presentes em contextos de conflito. No caso das mulheres, a violência exercida contra seus corpos pode ser analisada como uma forma dos atores conseguirem atacar o inimigo e ter acesso ao controle e à extração dos recursos que serão explorados por companhias multinacionais (TRUE, 2010). 

Reynolds (2008) e LeBaron e Roberts (2010) partem das discussões da Economia Política Feminista para analisar a relação entre a política de “guerra às drogas”, a expansão coercitiva do capitalismo e o complexo industrial-prisional. Um dos impactos do capitalismo neoliberal seria a precarização do mercado de trabalho formal, o que impulsiona muitas mulheres, principalmente negras, pobres e migrantes, para as atividades ilegais, como o tráfico de drogas. No entanto, essa ordem econômica global também demanda o controle estatal sobre os movimentos de desordem social e resistência, levando ao encarceramento dessas mulheres envolvidas com as drogas (LEBARON; ROBERTS, 2010, p. 22, tradução própria). 

 

Referências: 

ADÃO, Maria Cecília de Oliveira. A mudança da tradição: esposas, comportamento e Forças Armadas (1964-1998). Tese (Doutorado) História. Franca: UNESP, 2008. Disponível em: https://gedes-unesp.org/wp-content/uploads/2018/06/m11_u8_09052014-18-39-48-1.pdf

ARRUZZA, Cinzia; BHATTACHARYA, Tithi; FRASER, Nancy. Feminismo para os 99%: um manifesto. Edição Kindle, Boitempo Editorial, 2019.

BAKKER, Isabella; GILL, Stephen (Ed.). Power, production, and social reproduction: human in/security in the global political economy. New York: Palgrave Macmillan, 2003.

DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. Boitempo Editorial, 2016.

FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpos e acumulação primitiva. Editora Elefante: Coletivo Sycorax, 2019b. Disponível em: http://coletivosycorax.org/wp-content/uploads/2019/09/CALIBA_E_A_BRUXA_WEB-1.pdf 

FEDERICI, Silvia. O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista. Editora Elefante: Coletivo Sycorax, 2019a. Disponível em: http://coletivosycorax.org/wp-content/uploads/2019/09/Opontozerodarevolucao_WEB.pdf 

FERNANDES, Sabrina; BHATTACHARYA, Tithi. Socialismo, feminismo e os impactos da pandemia feat. Tithi Bhattacharya. Teoria engajada 004. Tese Onze. Youtube, 28 de abril de 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ys2YCJ8jPkE. Acesso em 16 de agosto de 2021.

HARAWAY, Donna. “Gênero” para um dicionário marxista: a política sexual de uma palavra. Cadernos Pagu, p. 201-246, 2004.

LEBARON, Genevieve; ROBERTS, Adrienne. Toward a feminist political economy of capitalism and carcerality. Signs: Journal of Women in Culture and Society, 36(1), 19-44, 2010.  Disponível em: <https://www.jstor.org/stable/pdf/10.1086/652915.pdf?casa_token=p4RqvvlOlWsAAAAA:F0HX5KXHpWf8oypUctIvPjIIyJHaTy1i8k5qVqdReoNu4qIVY5yQ1kcyqnSo1mOLxQ0rfKrUZB3Xi-SYrS2oZzNLAEfyCUKvKOyy_lJurWLruc4RXQs3&seq=1#page_scan_tab_contents>

MIES, Maria. Patriarchy and accumulation on a world scale: Women in the international division of labour. Bloomsbury Publishing, 2014.

NEOCLEOUS, M. ‘A brighter and nicer new life’: Security as pacification. Social & Legal Studies. Jun, n. 20, v. 2, 2011, p. 191-208.

REYNOLDS, Marylee. The war on drugs, prison building, and globalization: Catalysts for the global incarceration of women. NWSA Journal, 20(2), 72-95, 2008.  Disponível em: <https://muse.jhu.edu/article/246756/pdf?casa_token=SRJtUe-PsikAAAAA:O7lVkmWOTPq7ClaetY7Wf3qQDi_rfiaM2F2J1LMRIixQH-MXKtAdMp0rKnwTvkdpsEc_xA3eY5s>. Acesso em 07 jul. 2019. 

ROBERTS, Adrienne. Feminist historical materialist and critical theory. In: Handbook on gender in world politics. Edward Elgar Publishing, 2016.

TRUE, Jacqui. The Political Economy of Violence Against Women: A Feminist International Relations Perspective. Australian Feminist Law Journal, 32:1, 2010, 39-59. DOI: 10.1080/13200968.2010.10854436

[i] Muitas manobras foram realizadas para que as pessoas com menor condição financeira fossem as mulheres. Ao redor de todo o sistema internacional, nota-se maiores dificuldades econômicas e exploração da força de trabalho para grupos de mulheres se comparados aos homens. (FEDERICI, 2019a)

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