Dicionário de Gênero e Segurança

FEMINISMO PÓS-ESTRUTURALISTA

Ana Carolina Miguel Faustini
Helena Salim de Castro
Raissa do Vale Vieira

25 de novembro de 2021

O feminismo pós-estruturalista parte de uma concepção ontológica do “gênero” como socialmente construído e reproduzido por meio da prática discursiva e das relações de poder. Diferentemente da visão construtivista, que entende sexo enquanto uma categoria biológica e o gênero enquanto uma construção social, autoras do feminismo pós-estrutural, como Judith Butler (2019) e Laura Shepherd (2010; 2013), consideram que o sexo biológico é produto dos entendimentos e ideias construídas sobre gênero e que não existem características essenciais ou inerentes a nenhuma categoria de análise (SCOTT, 2010). Em outras palavras: “o corpo sexuado é tanto um produto de discursos sobre gênero quanto os discursos sobre gênero são um produto do corpo sexuado” (SHEPHERD, 2010, p. 8, tradução própria). 

Maria Stern (2016, p. 35-38, tradução própria) assinala que a base do feminismo pós-estrutural está em colocar em xeque as categorias binárias de gênero responsáveis por dividir os indivíduos entre ‘masculino’ e ‘feminino’, investigando como essas categorias interferem no processo de subjetivação, ou seja, no “processo pelo qual os indivíduos são produzidos enquanto sujeitos específicos por meio do funcionamento do poder”. Para isso, o conceito de performatividade, conforme desenvolvido por Butler (2018) e utilizado pelas teóricas feministas pós-estruturalistas, ganha importância nas análises. As identidades e as expressões de gênero são formadas pela repetição de signos, atos e gestos que são tanto intencionais quanto performativos, e que ao mesmo tempo em que produzem, também reiteram os significados e a construção dos corpos. Desse modo, para sermos reconhecidos pelos outros e por nós mesmos, nosso gênero deve ser expresso dentro de limites históricos e culturais específicos, sendo, no entanto, justamente nessa performance que está o espaço para a agência e para a transgressão.

Conforme posto por Shepherd (2010, p. 5, tradução própria), o gênero é “não apenas um substantivo (ou seja, uma identidade) e um verbo (ou seja, uma maneira de olhar para o mundo, […], mas também uma lógica, que é produzida por e produtora das maneiras como entendemos e executamos a política global”. Propor uma análise de gênero permite, portanto, “pensar criticamente sobre como os significados dos corpos sexuados são produzidos em relação uns aos outros, como esses significados são implantados e alterados.” (SCOTT, 2010, p. 10, tradução própria).

Para compreender esses aspectos é preciso desafiar e desconstruir os discursos predominantes, tornando visível os fundamentos de gênero que carregam em si uma relação de poder. O feminismo pós-estrutural, como o próprio nome indica, baseia-se na teoria do pós-estruturalismo[i] nas RI[ii], com isso, o discurso (enquanto conceito e metodologia) adquire um espaço central nas análises. Os discursos são entendidos como estruturas de representações histórica, social e institucionalmente específicas que se estabelecem a partir de um sistema de diferenças no qual a identidade e o significado dos elementos são relacionais (STERN, 2016).

Nos estudos de Segurança Internacional, o feminismo pós-estruturalista contribui para questionar os comportamentos e políticas dos Estados, autoridades públicas e instituições não-estatais desconstruindo e questionando os discursos e documentos de segurança. Shepherd (2008) analisou o documento da Resolução 1325 sobre Mulheres, Paz e Segurança do Conselho de Segurança das Nações Unidas com o objetivo de investigar como os conceitos de segurança (internacional) e violência (de gênero) foram discursivamente construídos e como os entendimentos (re)produzidos por esses conceitos impactam na aplicação das diretrizes da Resolução em contextos de operação de paz. 

As autoras e autores dessa perspectiva teórica também visam investigar como os representantes e as instituições estatais, como as forças armadas e a polícia, buscam performar uma imagem “masculinizada” (e militarizada) de si próprios para serem “aceitos” e obter legitimidade na política internacional. A construção de um imaginário sobre o comportamento desejável e aceito nos contextos de guerra e conflito armado serve, também, para invisibilizar a situação de alguns sujeitos e, inclusive, negar a participação daqueles que não performam uma masculinidade heteronormativa nesses espaços (ELSTHAIN, 2005; KRONSELL, 2006; WILCOX, 2009).

O feminismo pós-estrutural critica o fato de que as políticas de segurança seriam construídas e justificadas por meio de uma linguagem baseada nos binarismos de gênero, que constroem uma imagem masculinizada do Estado, mais especificamente das instituições e dos organismos estatais, por meio da atribuição de características como força, racionalidade e autonomia. Esse Estado masculinizado hegemônico se diferencia (ao mesmo tempo que se relaciona e depende) de outros atores e sujeitos que, caracterizados como fracos, dependentes e/ou irracionais, performariam uma feminilidade e/ou masculinidades subalternas ou marginalizadas (CONNEL, MESSERSCHMIDT, 2005). Por meio da prática discursiva, tanto falada quanto escrita, o Estado (masculino hegemônico) apresenta-se como o protetor natural da nação (feminizada), aquele que possui os atributos para garantir a segurança não só do seu povo, mas, em alguns casos, de populações estrangeiras nas quais o próprio governo não teria a mesma capacidade de garantir proteção diante de ameaças provindas de atores tais quais grupos terroristas, grupos de narcotraficantes ou soldados inimigos, que performariam uma masculinidade subordinada (HOOPER, 2001; SCHEMENAUER, 2017; TELLES, 2019).

Telles (2019) analisou como os discursos de “guerra às drogas” do governo dos Estados Unidos  foram constituídos por meio de representações de gênero. Enquanto as declarações do presidente Richard Nixon, nos anos 1970, sustentavam uma imagem de feminização dos usuários de drogas, os discursos de “guerra às drogas” a partir de meados dos anos 1980 se basearam na construção da imagem dos governos e forças de segurança latino-americanos como performando uma masculinidade enfraquecida e feminizada, os quais precisariam do suporte e auxílio dos soldados estadunidenses (representantes da masculinidade positiva e hegemônica). A generificação desses discursos teria contribuído para justificar a intervenção dos Estados Unidos e a militarização do combate às drogas na América Latina (TELLES, 2019). 

Uma das críticas que as feministas pós-estruturalistas recebem está relacionada à capacidade de se pensar uma estratégia feminista e/ou promover mudanças diante de uma análise que nega qualquer possiblidade de categorizar e definir o que seria uma “experiência da mulher”. Pois, como reflete Scott (2010, p. 225, tradução própria), “[n]ão há essência de feminilidade (ou masculinidade) que forneça um tema estável para nossas histórias”. Nesse sentido, “o projeto de criar um sujeito para o feminismo contemporâneo (uma coletividade ativa e protestante, afirmando seus direitos, buscando a emancipação da opressão) tendeu a confundir os limites das diferenças, sejam temporais, culturais ou sociais.”. Para a autora, é preciso pensar o feminismo como “uma intervenção estratégica em um conjunto de discursos que não se restringem às ‘mulheres’.” (SCOTT, 2010, p. 225, tradução própria). 

Outra crítica refere-se à ênfase dada ao discurso em detrimento da materialidade, o que poderia culminar em uma situação de inércia frente aos desafios e problemas apontados pela própria literatura. Para Hansen (2006), no entanto, a análise pós-estruturalista não nega a existência de fatores materiais, mas, sim, considera que esses sempre são mediados pelo discurso, ou seja, vão ganhar significado através da prática discursiva (HANSEN, 2006). Nesse sentido, os discursos não são apenas grupos de signos ou de elementos que se relacionam, mas, são práticas que constituem os objetos de que falam, além de (re)produzirem relações de poder na sociedade. Essa produção de sujeitos e de significados não se dá, entretanto, segundo estruturas discursivas fixas e nem fechadas em si, tendo em vista que uma vez que os significados são produzidos, esses são também temporários (STERN, 2016). Os discursos estão, portanto, abertos à crítica e à mudanças. 

Referências

BUTLER, Judith. Corpos que importam: os limites discursivos do sexo. Tradução de Veronica Daminelli e Daniel Yago Françoli. São Paulo: N-1 Edições, 2019.

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. 16º Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

CAMPBELL, D. Writing security: United States foreign policy and the politics of identity. Minneapolis, MN: University of Minnesota Press, 1992.

CONNELL, Robert W.; MESSERSCHMIDT, James W. Hegemonic masculinity: Rethinking the concept. Gender & society, v. 19, n. 6, p. 829-859, 2005.

DEVETAK, Richard. Postmodernism. In: BURCHILL, Scott. Theories of International Relations. New York: Palgrave, 2005.

ELSTHAIN, Jean. Women and War. In: TOWNSHEND, Charles. The Oxford History of Modern War. Oxford: Oxford University Press, 2005.

HANSEN, Lene. Security as a Practice. Discourse Analysis and the Bosnian War. Routledge: London and New York, 2006. 

HOOPER, Charlotte. Manly states: Masculinities, International Relations, and Gender Politics. Columbia University Press, 2001.

KRONSELL, A. ‘Methods for Studying Silences: Gender Analysis in Institutions of Hegemonic Masculinities’.  In: ACKERLY, B. STERN, M. Stern, TRUE, J. (eds) Feminist Methodologies for International Relations. Cambridge: Cambridge University Press. 2006, 108–28.

KRYSTALLI, Roxani. Narrating violence: feminist dilemmas and approaches. In: SHEPHERD, L. (ed) Handbook on Gender and Violence. Cheltenham: Edward Elgar Publishing. 2019.

MOUNTIAN, Ilana. Cultural ecstasies: Drugs, gender and the social imaginary. Londres: Routledge, 2013.

RODRIGUES, Thiago. Agonismo y genealogía: hacia una analítica de las Relaciones Internacionales. Relaciones Internacionales, Madrid, España, n. 24, p. 89–107, 2013.

SCHEMENAUER, Ellie C. Gender, Identity, and the Security State. In: Oxford Research Encyclopedia of International Studies, 2012.

SCOTT, Joan W. ‘“Experience”’, In: BUTLER, J., SCOTT, J. (eds) Feminists Theorize the Political. London: Routledge; 1992, 17:773–97.

SCOTT, Joan W. Gender: Still a Useful Category of Analysis? Diogenes, v. 57, n. 1, p. 7-14, 2010. 

SHEPHERD, Laura. Feminist Security Studies. In: SHEPHERD, L. (ed). Critical Approaches to Security: an introduction to theories and methods. New York: Routledge, 2013.

SHEPHERD, Laura J. Gender, Violence and Security: Discourse as Practice. Zed Books: London & New York, 2008. 

SHEPHERD, Laura J. Mujeres, conflictos armados y lenguaje; género, violencia y discurso. International Review of the Red Cross. Marzo de 2010, N.º 877

SHEPHERD, Laura. Sex or Gender? Bodies in World Politics and Why Gender Matters. In: SHEPHERD, L. (ed). Gender Matters in Global Politics: a feminist introduction in international relations. New York: Routledge, 2010.

STERN, Maria. Poststructuralist Feminism in World Politics. In: STEANS, Jill; TEPE-BELFRAGE, Daniela (eds). Handbook on Gender in World Politics. Edward Elgar Publishing, 2016.

TELLES, Ana Clara. Mothers, Warriors and Lords: Gender(ed) Cartographies of the US War on Drugs in Latin America. Contexto Internacional, vol. 41(1) Jan/Apr 2019. 

WADLEY, J. Gendering the State: performativity and protection in international security. In: SJOBERG, Laura (Ed.). Gender and International Security: feminist perspectives. Londres: Routledge, 2010.

WILCOX, Lauren. Gendering the cult of the offensive. In: SJOBERG, Laura (Ed). Gender and International Security: Feminist perspectives. Routledge, 2009, p. 61-82.

[i] A teoria pós-estruturalista constitui-se a partir da herança teórica e filosófica de autores como Foucault, que buscam questionar a produção do conhecimento e as relações de poder existentes nas diferentes estruturas da sociedade. Nesse sentido, autores pós-estruturalistas das RI, como Rob Walker e Richard Ashley, têm como objetivo “desconstruir” o conhecimento para investigar como são construídas as identidades e as relações entre os atores na política internacional (RODRIGUES, 2013). De maneira geral, os autores dessa abordagem argumentam que há uma relação de co-constituição (ou performatividade) das identidades dos atores, sendo a identidade do “Eu” dependente do entendimento que se tem da identidade do “Outro”.

[ii] Por vezes, em livros que tratam sobre as teorias das RI encontramos os termos ‘pós-estruturalismo’ e ‘pós-modernismo’ sendo utilizados como sinônimos, no entanto, existem diferenças entre eles. O ‘pós-modernismo’ representa um conjunto maior de teorias que criticam a crença no racionalismo, na razão pura e na busca por teorias e narrativas totalizantes, sendo o ‘pós-estruturalismo’ uma dessas teorias (DEVETAK, 2005; STERN, 2016).

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